Anozero | Salvar a alma do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova
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Salvar a alma do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova

Por Janet Cardiff

Escrevo não apenas como artista, mas como testemunha de algo raro e insubstituível.

O meu trabalho levou-me a quase uma centena de museus e espaços culturais por todo o mundo. No entanto, nenhum me comoveu como o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. Juntamente com George Bures Miller, tive o privilégio de expor naquele espaço sagrado — um lugar onde a história respira através das pedras em ruína, onde o chão sussurra séculos e as paredes carregam o peso da devoção e do tempo. A pungência da «Roda da Vida» dentro das suas paredes não é apenas visível — é sentida.

Este não é simplesmente mais um edifício antigo. É um arquivo vivo de cultura, memória e espírito. Espaços assim estão a desaparecer por todo o mundo. Preservar um deles não é só um ato de conservação — é um dever. O Mosteiro deveria ser reconhecido como um tesouro nacional e elevado a centro cultural, um espaço que honra o seu passado enquanto abre portas ao futuro. Imagine visitas guiadas com áudio e vídeo a ecoar pelos seus corredores, performances a animar os seus claustros, instalações site-specific a reacender-lhe a alma — a história reanimada para todos, não embalsamada para poucos.

E no entanto, incompreensivelmente, há quem deseje sacrificar este tesouro no altar do lucro. Transformar este lugar num hotel de cinco estrelas — reservado apenas aos ricos, despojado da sua dignidade e espírito — seria nada menos do que vandalismo cultural. Um crime contra o povo de Coimbra, e contra a própria história.

Há espaço suficiente noutros pontos do terreno para que a hospitalidade surja de novo — projetada segundo as necessidades modernas, equipada com as comodidades esperadas pelo viajante de hoje. Mas esventrar o Mosteiro para servir o luxo, silenciar os seus ecos em nome do conforto da elite, é uma profanação. Uma vez perdido um edifício como este, perde-se para sempre — e nenhum dinheiro poderá jamais reconstruir a alma que foi destruída.

Sejamos claros: estamos perante uma encruzilhada. Podemos escolher a memória, a cultura e o acesso — ou podemos escolher o lucro imediato a um custo irreversível. Pelo bem de Coimbra, pelo bem da arte e pelas gerações futuras, façamos a escolha certa.

Junho 2025

Save the soul of the Monastery of Santa Clara

By Janet Cardiff

I write not only as an artist, but as a witness to something rare and irreplaceable.

My work has taken me to nearly a hundred museums and cultural spaces across the globe. Yet none have moved me like the Monastery of Santa Clara. Together with my collaborator George Bures Miller, I had the privilege of exhibiting in that sacred space — a place where history breathes through crumbling stone, where the floor whispers centuries, and the walls carry the weight of devotion and time. The sheer poignancy of the “Wheel of Life” within its walls is not just seen — it is felt.

This is not just another old building. It is a living archive of culture, memory, and spirit. Such spaces are vanishing across the world. To preserve one is not merely an act of conservation — it is a duty. The Monastery should be recognized as a national treasure and elevated into a cultural center, one that honors its past while opening its doors to the future. Imagine audio and video tours echoing through its halls, performances animating its courtyards, site-specific installations rekindling its soul — history reawakened for all, not embalmed for the few.

And yet, incomprehensibly, there are those who would sacrifice this treasure on the altar of profit. To transform this place into a five-star hotel — reserved only for the wealthy, stripped of its dignity and spirit — would be nothing short of cultural vandalism. A crime against the people of Coimbra, and against history itself.

There is room enough elsewhere on the grounds for hospitality to rise anew — designed to modern needs, built with the amenities expected by today’s traveler. But to gut the Monastery to suit luxury, to silence its echoes for the sake of elite comfort, is a desecration. Once a building like this is lost, it is lost forever — and no amount of money can ever rebuild the soul that is destroyed.

Let us be clear-eyed: this is a crossroads. We can choose memory, culture, and access — or we can choose short-term gain at irreversible cost. For the sake of Coimbra, for the sake of art, and for the generations still to come, let us make the right choice.

June 2025